27 abril 2005

finalmente…

...após quatro anos a morar na Sé Velha de Coimbra e tê-la á distância de uma janela, os andaimes e a cobertura verde tropa estão quase a abandoná-la, é caso para dizer que já não era sem tempo. Este é o momento para começar a descobri-la, não falta muito para a deixar. Ainda é cedo para saber se vai deixar saudades, mas é difícil.

26 abril 2005

um reencontro…

...de amigos desavindos é quase sempre um tiro no escuro. Acabamos por não saber como vamos reagir quando estivermos cara a cara, vamos perder as estribeiras e exaltarmo-nos ou falar como homens e tentar resolver as coisas calmamente, com discernimento? A caminho da festa não pude deixar de tentar treinar a expressão da cara, o que havia de dizer, como dizer, o coração palpitou e a boca secou. “Estou bem. Não tenho nada. Está muito calor…”, seria assim tão óbvia a minha indisposição? Parece que sim. O meu filho reparou. Estacionei e vi o teu carro que não passa despercebido. “O tio André também está cá papá!”. Não respondi, dei-lhe a mão e subimos a pequena estrada de terra batida. Quando entrámos, o Pedro foi logo ter com o avô, acenei-lhe de longe. Procurei-te com os olhos, estavas ao pé do cedro com a nova namorada e os teus putos. Caminhei devagar sem tirar os olhos de ti, tu fizeste o mesmo, encontrámo-nos a meio. Não falámos, só sorrimos, ao fim de uns segundos soltaste uma gargalhada e abraçámo-nos. “O que queres beber meu velho?”, bebo sempre um bom gin, tónico, pois claro. A tua irmã também nunca dizia que não. Tenho saudades dela.

22 abril 2005

perfumes…

...quem não os usa? Eu uso. Não prescindo do meu. Agora, porque é que usamos os perfumes? Por uma série de diferentes razões, vaidade, o vício do ritual, necessidade de afirmação, auto estima, disfarce – da falta de higiene –, hábito, vaidade (estou-me a repetir)…ah! “Gosto de deixar um rasto do perfume por onde passo!” – o que me leva ao que interessa, as pessoas que abusam dele, encharcam-se nele. Existem alguns que conseguimos gostar e até os procuramos mais tarde na perfumaria, o nervo olfactivo acaba por se habituar ao contínuo estímulo e até agradece. Um cheiro agradável tem a capacidade de nos pôr bem dispostos, mas aqueles, especialmente os de mulher, muito doces e quentes tornam-se praticamente insuportáveis, chegam a causar enjoo. Não será uma falta de respeito quando praticamente nos obrigam a cheirá-lo? Quando abandonam a sala ou o quarto deixam lá a sua presença, um espectro que se cheira. Tudo bem que o ar é de todos, lá dizia o outro, mas porra, tenham o nariz no sítio e lembrem-se dos outros. Talvez seja uma questão de gosto, mas eles também se discutem.

21 abril 2005

alguma coisa será…

...ou muito me engano, ou a coisa é mesmo feia. A velhota falava com longas pausas. Sentada nos degraus á entrada de casa, cobria a testa do sol enquanto falava com a comadre. Fazia bastante calor, sabia bem aquele bafo quente, há que aproveitar, quando se é velhote é-se como um lagarto, fica-se com o sangue frio. A comadre abeirou-se dela e tomou o seu lugar numa cadeira á sua esquerda. O cão arfava e sacudia as moscas com a cauda escanzelada. O tempo passava devagar, devagarinho. Nessa tarde apareceram pela aldeia dois homens bem parecidos à procura do Ti Joaquim, quem seriam eles? O que quereriam eles do morto? Fazia quase uma semana que a aldeia havia chorado a morte do ancião quase centenário, bom homem. Quem seriam eles? Esta pergunta não saía da cabeça da D. Isabel. “Cá para mim são os netos dele. Os filhos do António…esse foi o úlimo…”. Os dois homens após algumas perguntas indiscretas e sorrateiras aos poucos habitantes chegaram a casa de D. Isabel, viúva, sem filhos. Pois bem, o avô paterno tinha batido a bota, tanto melhor, esta era a altura para tirar tudo a limpo, teria o velhote assim tanto dinheiro como o pai dizia? D. Isabel que se havia tornado na companheira do Ti Joaquim há mais de trinta anos, enviuvou muito nova. Joaquim, esse enterrou os seus três filhos e a mulher, só o mais novo deixou descendência. O testamento estava em posse da D. Isabel. Era verdade. Dinheiro, terras e mais terras, estava lá tudo escarrapachado e, era tudo dela. Nesse mesmo dia Pedro e José resolveram comprar um casebre em ruínas que ficava em frente da casa da velhota. A “avozinha” parecia muito simpática e quase nas últimas, engano deles. Seria a solução de todos problemas e aquela aldeia do interior daria um óptimo esconderijo.

18 abril 2005

um fim de tarde

O vento soprava, mas não estava muito frio. Conseguiste arrancar-me de casa. Quando caminhávamos ao longo do rio de mão dada, fizeste quase questão com aquele teu olhar, ouviste o que parecia uma rã a coaxar, não era, ri-me. Só acreditaste que era uma garrafa depois de a veres a embater ritmadamente nas pedras da margem, pequenas ondas abanavam-na, o som era muito parecido, assenti. Fizemos alguns planos para o futuro, nada de importante, decidíamos entre uns dias na praia ou um fim-de-semana nalgum hotel recatado. O género de coisas que um de nós se lembrará daqui a algum tempo. Procurámos um café, tinhas as mãos frias, apertaste a tua na minha. Nuvens encobriam um sol preguiçoso. Acendeste um cigarro, o fumo que saía da tua boca incomodou-me, pediste desculpa e beijaste-me na cara. Estavas feliz e sorridente. Um milhafre sobrevoou calmamente o rio. Ainda era cedo.

13 abril 2005

desilusão

De rastos. Um telefonema. Uma voz feminina e simpática que comunica uma decisão de cima. Não era o que estava à espera. Redobrar esforços e levantar a cabeça. Não me dou por vencido.

os homens também gostam de flores...

...eu, pelo menos, gosto. Um jardim. Uma casa. Um quarto. Estão por todo lado. Na jarra em forma de gota, por acção da gravidade, duas túlipas côr de fogo fazem companhia a uma cana de bambu, faz muito tempo que está sozinha, não reclama. " A cana é para dar sorte". Acreditei, falaste com aquele tom sério e franziste a testa quando eu esbocei um sorriso trocista. Ainda guardo a primeira rosa que me deste está seca e escura, segura por um prego enferrujado. A vida não é um mar de rosas, mas por ti era bem capaz de ser, também não me importava que fosse.

11 abril 2005

o tempo certo

Não quero ficar com um nó na garganta, por isso, já deves ter reparado, tudo aquilo que penso acerca de nós os dois e tudo o que sinto digo-te sem constrangimentos. Entre nós as coisas só têm que ser assim, não somos estranhos, somos a mesma carne, o mesmo sangue, o tempo de alguma distância já lá vai. Quero estar contigo. Nos silêncios das nossas conversas, reparo como as nossas feições se assemelham, sou teu filho. Digo e vou continuar a dizer, porque agora é que o tempo certo, agora. Amo-te

07 abril 2005

sôtora,sôtora...

Quando somos clientes habituais de um espaço, seja ele um restaurante, um bar ou um café e, sentimos que não somos apenas mais um, acabamos por nos afeiçoar a ele e ás suas pessoas. Comigo é assim. Um destes dias, entrou uma mulher extremamente elegante no “meu” espaço. Do tipo executiva. Portadora de uma bela figura – detive o meu olhar nela por alguns segundos, sou um admirador confesso de pessoas bonitas – acompanhada de uma mulher um pouco mais velha, sem maquilhagem, estilo mais sóbrio. Durante o almoço não pude deixar de reparar nela. Sentou-se de costas para a televisão, não a censuro. O circo do costume, os directos de Roma e afins. Nas conversas a outra mulher era uma espécie de sombra, estava ali para ouvir, a sua opinião não contava. Sorria e assentia com a cabeça, falava baixinho ao contrário da Sôtora. A decepção foi grande. Fazia questão de mostrar que era uma pessoa arrogante, orgulhosamente arrogante e as pessoas educadas que trabalham honestamente e, com um sorriso não merecem levar com estas figuras em cima, não merecem mesmo nada. Quis estar na pele do António na altura em que lhe levou o café. “OOPS! …mil desculpas! Vou já buscar o tira nódoas Sôtora…”

06 abril 2005

ansiedade

Não posso sair de casa, tenho um trabalho para acabar e o prazo aperta. Um zumbido ensurdecedor entra por todo lado, já tentei mascará-lo com tudo, mas nem os auscultadores conseguem abafar esse monstro. Fui até á rua, ninguém parece incomodado, ninguém sabe de onde ele vem, voltei para dentro. Serei o único a sofrer em silêncio neste prédio velho, de paredes sujas e janelas podres?

05 abril 2005

um sorriso

Falámos os três. Deste o primeiro passo enquanto ele foi buscar um café, piscaste-me o olho e então percebi, tinha razão, não há dúvidas. Já tens alguém. Fiquei contente por ti e por mim. Ver-te sorrir com cumplicidade tirou-me um peso dos ombros, tomei a decisão certa, não da melhor forma, eu sei. Sentei-me com vocês. Gosto dele, não interessa, também sei. Boa sorte...

04 abril 2005

atenção aos sinais...

A cara dela contorceu-se de dor e uma única lágrima escorreu-lhe da face, “merda”, não suporta cortar-se. Do dedo escorria um fiozinho de sangue, levou-o á boca, gosta do sabor férrico.
Procurei um pouco de gaze, ou um penso, não há, “deixa estar o dedo na boca”. Passei-lhe a mão pelo cabelo, fechou os olhos ternamente. O jantar está quase pronto. Eu acabo a salada, põe tu a mesa.

01 abril 2005

dia das petas

"Mentira lo que dice Mentira lo que da Mentira lo que
hace Mentira la mentira Mentira la verdad Mentira lo que cuece Bajo la oscuridad
Mentira el amor Mentira el sabor Mentira la que manda Mentira comanda Mentira la
tristeza Cuando empieza Mentira no se va Mentira, Mentira La Mentira... Mentira
no se borra Mentira no se olvida Mentira, la mentira Mentira cuando llega
Mentira nunca se va Mentira la mentira Mentira la verdad Todo es mentira en este
mundo Todo es mentira la verdad todo es mentira yo me digo Todo es mentira ¿Por
qué será?"

Manu Chao - Mentira