29 novembro 2005

a melhor amiga...(Roy Lichtenstein)



...atrasada para mais uma sessão, Evangélica sorriu timidamente para a secretária. "vou já avisar o sôtor!" passados poucos minutos a porta forrada a cabedal entreabriu-se, era a sua deixa. entrou de mansinho.
- posso sôtor?...
- oh...entre Evangélica, como está a querida?
- ai sôtor Faria...este trânsito é de loucos - corou, loucos? devo estar doida, falar em loucos ao sôtor.
- hmm...e então? como foram as...sente-se, tire o casaco. como foram as últimas duas semanas? alguns progressos?
- olhe sôtor, além de não ter falhado a medicação, hoje fiz mais de dois quilómetros na faixa da direita, mas a do meio, com aquela vozinha doce " eu sou melhor que as outras, eu sou melhor que as outras, sai daí, vem p'rá aqui" não resisti e lá fui eu, logo. parece um íman.
- pois, pois...

28 novembro 2005

um cinturão...(Edward Hopper)



...incolor vai-me apertando da cabeça aos pés, uma sensação angustiante. é este tempo, este sol falso que aquece demais e este vento intermitente que corta a carne até aos ossos quando sopra, parece uma faca serrilhada. são estes dedos acobreados do vício que me lembram vãs promessas e outras desilusões e ainda hoje é segunda.

26 novembro 2005

reunião...(Max Beckmann)



...de família pela pior das razões. rever faces que o tempo esculpiu, recordar as caras (não tenho, nem nunca tive jeito para nomes) de um passado não muito longínquo. um sem fim de apertos de mão e beijos por vezes de quem não conhecemos, estas nem descortinamos por baixo das rugas e dos agasalhos, não têm correspondência no maranhal de memórias. o frio serrano não perdoa. caras de uma infância feliz."ainda te lembras de mim?" tomara que não, não assim.

21 novembro 2005

na minha cabeça...(Gustav Klimt)



...tenho que abrir a cabeça, arejá-la. o cheiro que acordou comigo colou-se ao cérebro. qual verme infeccioso inunda as sinapses, contamina as dendrites e os axónios. o teu cheiro sobrepõe-se a todos os outros e está a tornar-se insuportável, és um parasita. preciso dos outros cheiros, não preciso do teu.

20 novembro 2005

domingo...(Edward Hopper)



...depressão de domingo, odeio-a.

17 novembro 2005

era bom...(Edgar Degas)



...que conseguisse encontrá-lo. o extracto é mesmo isso, um extracto.

resolução...

...quando me cruzar com o doutor Pangloss vou assentar-lhe um valente par de tabefes.

15 novembro 2005

a vida...(Edward Hopper)



...é feita de repetições.

14 novembro 2005

antidepressivo...(Frederic Bazille)

tempo perdido...

...a entrevista de cavaco. pareceu mal preparado e muito inseguro. já começou a perder votos, claramente. puro "cálculo eleitoral". disco riscado, lugares comuns, falta de compromisso. aí está o monstro que muitos aclamam. é isto o candidato mais bem colocado para ser presidente?provavelmente não merecemos melhor.

10 novembro 2005

#2 por um dia gostava...(Tom Thomson)



...de ser vento e varrer a terra sem parar, a princípio como uma brisa e no final do dia acabava como um furacão. tipo operação de limpeza localizada.

08 novembro 2005

emplastros...(para coleccionar)

...mais que nas autárquicas vai ser vê-los em todos os noticiários, em todo o lado e especialmente ao lado e atrás dos candidatos mais mediáticos, todos. o espectáculo já começou e os cromos são muitos. para ver com pouca atenção.

repórteres e afins…(John Sloan)




...não há cu que aguente. espero o dia, tranquilamente, em que um entrevistado exerça o seu direito á liberdade de expressão física e assente uma bela e sonora estalada, em directo, nos “repórteres” que apenas abordam as pessoas com perguntas embaraçosas e descabidas, aquilo é o seu directo, o momento pelo qual esperaram, colocar a pessoa entre a espada e parede, há que incomodá-la e, se possível, humilhá-la. aproveitando a onda e as repostas, quando as há, com um ar encabulado e visivelmente agastado do “entrevistado” o pivot do noticiário aplica, não bastas vezes, a estocada final com uma leve pitada de ironia. fantástico.

a coruja…(Joseph Cornell)



...não fomos só nós que nos habituámos ao buliço das cidades e ao ruído constante ao trânsito caótico. as dezanove horas ainda não bateram, uma coruja cruza a en-10 em câmara lenta, só vejo um bater de asas brancas. vai caçar o jantar, um roedor, um ratinho do campo rechonchudo e com pouco pêlo para não se tornar indigesto.

05 novembro 2005

o plano (Tom Friedman)



alvos: palácio de são bento e palácio de belém
data: a definir no próximo ano
engenho: bomba de merda




nota: a merda, humana de preferência, ou de suíno, deverá ser recolhida cerca oito semanas antes da produção dos engenhos e deverá estagiar nesse período de tempo em cascos de carvalho americano para apuramento de todo o seu potencial aromático lesivo; os engenhos serão deflagrados em simultâneo

nada a declarar...(John Peto)

04 novembro 2005

de raspão...

...saiu do carro calado a tremer de emoção, há mais de um mês que não batia por trás. a adrenalina segregada circulava á mil. o outro esperava-o calmamente, com um sorriso trocista. a veia na testa latejava, ia meter um murro nos cornos daquele cabrão. desde quando é que um puto de merda lhe chamava paneleiro e punha o dedo de fora da janela e não sofria as consequências? a vantagem de ter um carro com uma carroçaria de alumínio, "chapa como já não se faz", era esta, espetar uma cacetada por trás nos carros dos parvalhões que não sabem andar na estrada e não respeitam coisa alguma, a brincadeira não lhe ficava barata, mas era um bom escape. a coisa nesse dia correu mal, o puto do cabrio apontou-lhe uma arma, e agora senhor chapa? ficou branco e sentiu uma tontura, uma gota de suor congelou na sobrancelha, involuntariamente pestanejou. deu dois passos atrás e disse para o puto baixar aquela merda, pagava tudo, o pára-choques, a óptica, a pintura, tudo desde que baixasse aquela merda. o puto espetou-lhe um balázio na perna, de raspão. o velho mercedes verde azeitona passou a ficar na garagem e agora o senhor chapa anda de transportes públicos.