30 junho 2005
...a mãe num quarto. O pai num outro. Dormiram separados, sozinhos. Outra vez. Motivos: vários, muitos. Como os compreendo agora.
27 junho 2005
as vírgulas…
…começou na primária no dia em que todos aprenderam o que era a vírgula. Para o que servia e onde colocá-la. Torceu logo o nariz. Não gostava de vírgulas. Só de pontos. Apesar das insistências da dona Alice e umas centenas de reguadas á conta dos ditados nunca mais escreveu vírgulas. Achava-as esquisitas e retorcidas. A partir desse dia deixou de as copiar e começou a apagá-las em qualquer texto que encontrasse. O pai impotente perante a mania persistente do seu único rebento cedeu e começou-lhe uma biblioteca sem antes trancar os seus a cadeado. Rapidamente aprendeu que os jornais para nada servem porque a tinta da caneta de feltro passava ao longo de várias páginas apesar de lá apanhar uma ou outra no verso das outras. O corrector quando apareceu tornou-se no seu incansável companheiro na caça á vírgula. Em casa não entram vírgulas. Só pontos. Qual a finalidade das vírgulas? Articular ideias introduzir detalhes ou contradições enfim complicar. A escrita deve ser simples. Como tudo devia ser. Ponto. Sem vírgulas. Ponto.
25 junho 2005
uma grávida na praia...
...levantou-se com algum custo da toalha, barriga de sete meses, soube eu. Caminhou devagar, em direcção das poucas ondas que iam rebentando, com as mãos apoiadas nos rins, que linda barriguinha, ajeitou o chapéu de palha para o sol de fim de tarde não lhe dar nos olhos. Não chegou a molhar os pés, ficou ali, a olhá-lo agora com as mãos apoiadas na barriga saliente. "isto que estás a ouvir filhote, é o mar. onde está o papá. é lindo. já falta pouco para tu o veres".
23 junho 2005
pelo fim dos dias fodidos...
...entidades (in)competentes (gente que não faz nenhum, CAMBADA!), entidades patronais (ranhosos na sua maior parte e grandes culpados desta merda toda), amigos (quem? os verdadeiros), familiares, conhecidos, desconhecidos e anónimos, juntemo-nos para pôr cobro a este flagelo. Basta de sofrimento. Subscrevam este post, juntos seremos muitos:
- LV
ps: sim, que toda a gente os tem
- LV
ps: sim, que toda a gente os tem
22 junho 2005
ao balcão...
...tirou mais um fininho da cigarreira, desde que os maços começaram a aparecer com a merda dos slogans resolveu dar uso á cigarreira que o ex marido lhe tinha oferecido. O bar estava já quase vazio, quatro ou cinco pessoas ao balcão faziam o último pedido. Ela fez o seu primeiro, só bebia quando o bar estava para fechar, "malte, dezoito. água, lisa e natural". O barman sorriu, "o costume...". Hoje nem tinha chegado muito cedo, vinha de casa da irmã."és uma sortuda, não tens putos...o cabrão não aparece nem diz nada vai para mais de duas semanas. telemóvel desligado. os putos deviam estar com ele este fim de semana e o Rodrigo está lixado comigo, diz que eu não me imponho e até tem razão. já tinhamos tudo combinado, sair na sexta e chegar domingo á noite. parece que o cabrão adivinha...". Fechou a porta do quarto dos putos. "são uns reguilas, mas são um amor e giros como o cabrão do pai", "tu é que és uma sortuda maninha". Ajudou-a acabar de arrumar a cozinha e a garrafa de vinho que tinham aberto ao jantar. Despediram-se com um beijo ternurento. Só faltava ela, já todos tinham saído, o barman fechou a porta e correu os estores, aproximou-se por trás dela e passou-lhe a língua pela orelha, ela virou-se para ele e puxou-o para si, beijou-o com paixão, mas calmamente, como sabia bem aquela boca jovem e fresca. "hoje em tua casa?"
21 junho 2005
é assim, uns podem, outros tentam...
...nem sempre é fácil passarmos para um meio de suporte como o papel ou uma tela aquilo que idealizamos ou que temos em mente, só alguns, poucos conseguem. Perdes-te algures a meio do caminho e o resultado final está á vista, desastroso. É assim, certas coisas só estão ao alcance de alguns.
19 junho 2005
algumas horas...
...separam-me de um estado, espero eu, eufórico. Vou ser optimista para variar. Quero festejar, quero abrir aquelas garrafas de vinho escondidas que só eu sei onde estão e que de vez em quando me piscam o olho "estou á espera...", quero rir, gritar, abraçar e porque não verter uma lágrima? Estou pronto.
17 junho 2005
são os genes são...
...é sempre bom apanhar estes gajos com a mão na fruta. "eu adoro portugal, esse país maravilhoso...esse povo muito bonito...fui muito bem recebido...vou voltar logo logo..." e outras idiotices que fazem questão passar uns aos outros. "tá indo a portugal fazer uma grana? olha, diz isso para eles...eles se babam todos com a gente...". A culpa é dessa gente toda a quem só falta beijar o cu quando cá vêem. Viva o Brasil! Um jogo da Taça das Confederações é serviço público desde quando se Portugal não participa nela?! Ah, joga o Brasil, a pátria irmã, o povo irmão é por isso. O meu muito obrigado a Raul Cortez por me dar razão (ver revista Sábado ou o jornal Folha de S. Paulo - só assinantes). Detesto brasileiros, não todos, mas alguns, a maior parte. E especialmente os portugueses que lhes prestam vassalagem por "arrastão" (não me contive e também aderi á moda - importada pois de onde? - da embarcação de pesca de arrasto que curiosamente foi vista no areal de algumas praias portuguesas ou talvez não).
ps: apesar de ter conhecimentos em genética gostava que alguém me elucidasse quanto á pretensa relação entre genes e corrupção. Hilariante...
ps: apesar de ter conhecimentos em genética gostava que alguém me elucidasse quanto á pretensa relação entre genes e corrupção. Hilariante...
o monstro…
…passou a mão pelo cabelo desgrenhado e sem brilho, pequenas partículas de caspa ficaram presas na gordura dos dedos. Não sabia o que fazer. Cuspiu para o chão e olhou o cão mais uma vez, esperou. O cão tem estado quieto e mudo, parece pensar. Ainda não comeu nada, começa a ficar preocupado, tem uma fome de lobo. Não o quer por perto nem a olhá-lo. Não lhe rosnou, mas fez questão de mostrar os seus belos caninos quando os lábios tremelicaram. O monstro é dono dele, ele sabe-o, sabe que é usado e vai sê-lo até ao fim. “Não queres nada meu lindo?” aproximou-se com um sorriso manhoso nos lábios. Rosnou e ladrou com raiva, atirou-se para a frente, mas a corrente puxou-o. O monstro pegou no bastão e ameaçou bater. De pé nas patas de trás o enorme cão espuma-se, a corrente retesa-se e aperta-lhe o pescoço. Está um pouco magro, desta vez demorou mais tempo a recuperar do último combate. O outro cão morreu, não aguentou e acabou por morrer nos braços do outro monstro. Ou era ele ou eu, mas no próximo até ofereço o pescoço, nem ladro. Quero perder e fechar os olhos. Só sei matar. Olhou a taça da comida uma vez mais e devorou-a, a decisão estava tomada. Os olhos do monstro brilharam, “lindo menino”. No fim de comer deixou que ele se aproximasse para tirar o penso do pescoço, algumas gotas de sangue caíram no chão de cimento do barracão de três por dois com uma janela minúscula que dava para um ferro-velho, cheirava a mijo e a merda. O monstro visitava-o três vezes por semana, para o levar a apanhar um pouco de ar e treinar. Treinar? Levar porrada com o bastão. Os combates são sempre ao sábado á noite. A ferida ainda não está sarada. A recuperação não é total, mas ele também não vai durar para sempre. Ganhou-o num jogo de póquer e tem rendido bom dinheiro, ele que esteve para o oferecer a um outro monstro, sorriu ao lembrar-se e afagou-lhe pela primeira vez a cabeça. Ia inscrevê-lo já para esta semana. Cada vez há mais dinheiro em cima da mesa e ele é um campeão que nunca perde.
15 junho 2005
fortuna…
…hoje é sábado de manhã, a mamã não trabalha, o pai sim. Enquanto vejo uns desenhos animados e tomo o pequeno-almoço a correr no sofá, a mamã já me chama para irmos os dois ao mercado. É sábado de manhã, dia de mercado. A mamã, para não perder tempo segue sempre o mesmo trajecto, peixe, fruta e flores, a carne essa compra-a no talho do senhor António. De mão dada aí vamos nós, as velhotas com os saquinhos com rodas que mais parecem triciclos já fizeram as suas compras e cruzamo-nos com elas, vamos sempre um bocadinho tarde, não demasiado. Para não variar o mercado está a abarrotar, de mão dada, sinto-me quase encurralado quando caminhamos por entre as pessoas. Sou pequeno e só consigo ver pernas e rabos que se bamboleiam á minha frente, diferentes formas de andar. Barulho, muito barulho. Primeira paragem, a senhora da fruta, muito simpática e de voz doce. Prendia-me sempre o olhar aquele dente de ouro que reluzia quando ela sorria. A seguir era a senhora do peixe já velhota com uma verruga pequenina na ponta do nariz, sempre a enfiar e a tirar o saco de plástico das notas e das moedas cheias de escamas do bolso do avental. A sua banca era a mais modesta de todas, mas o seu peixe o mais fresco segredava-me a mamã. No ar o frango de churrasco avisava que a hora de almoço não tardava, alguns já lavavam as bancas e aquela água suja que escorria para o chão escuro e gorduroso enojava-me um pouco, puxava a saia da mamã “está a ficar tarde…temos de ir”. O chão ficava mais escorregadio e ainda mais gorduroso, os restos de um dia de trabalho iam-se acumulando nas pequenas valas que circundavam as bancas “para a próxima trago galochas”, “não sejas tonto”. Faltavam as flores que ficavam mesmo á saída. Entrávamos por um lado e saíamos do lado oposto. Lá estava o senhor o senhor sem pernas em cima do caixote de madeira mesmo em frente da senhora das flores, outra moeda de cinquenta escudos. No caminho de casa perguntei-te porque compravas flores disseste que “uma casa sem flores é uma casa sem fortuna”, “fortuna mamã?”, não respondeste. Mais tarde percebi que fortuna era essa, a sorte de te ter, a minha fortuna.
13 junho 2005
ai nuestros hermanos...
"EMPRESÁRIA ESPANHOLA DE VIAGEM A PORTUGAL PROCURA SEXO COM HOMEM PORTUGUÊS,PAGO BEM"
Das duas duas, ou nuestros hermanos não dão conta do recado ou então não cumprem com a função. Quanto a nuestras hermanitas que venham, são sempre bem-vindas. Depois das Zaras e das Mangos eis a invasão da mulher espanhola (empresária).
Das duas duas, ou nuestros hermanos não dão conta do recado ou então não cumprem com a função. Quanto a nuestras hermanitas que venham, são sempre bem-vindas. Depois das Zaras e das Mangos eis a invasão da mulher espanhola (empresária).
equívocos...
... e mal entendidos são o meu prato forte, se bem que não entenda muito bem porque é que isso acontece. Porquê? Por uma série de razões, válidas, sublinhe-se. Primeira: ouço muito bem e, adepto confesso e praticante da higiene básica e acessória, limpo todos os dias os meus ouvidos; Segunda: tenho boa memória; Terceira: sou um comunicador, sem falsa modéstia, nato, exprimo aquilo que sinto e penso sem quaisquer dificuldades e quando necessário objectivamente; Quarta: sou mentalmente são; Quinta e última: tenho sempre razão. Donde, os equívocos não têm razão de existir a não ser que as pessoas não me entendam. Seria esta a Sexta e única razão? Pois claro que não! Não é válida...
12 junho 2005
sou preguiçoso…
Esses preguiça-fóbicos. Esses amantes das actividades corporais e mentais. Esses adoradores do movimento que não conseguem estar parados, sempre a correr. Há sempre algo a fazer ou a precisar de ser feita e se não houver inventa-se, nem que seja reorganizar as estantes dos livros por géneros ou por editoras, aparar a relva, passear no centro comercial, ler as cartas dos primeiros namorados que entretanto se casaram e divorciaram no ano seguinte. O que pode ser feito hoje é feito agora, já, neste instante, não há tempo a perder. As ideias e planos sucedem-se em catadupa. Não suportam a preguiça, os preguiçosos, essa espécie…que sabe, e alguns, bem, nada fazer. Gosto de estar no sofá, absorto e anestesiado por uma televisão reles e merdosa que me tenta vender tudo e mais alguma coisa. Gosto de ficar na cama até tarde, a olhar o branco do tecto e de ficar imóvel com a cabeça vazia, tenho esse direito, essa dádiva. Gosto de ver o mar e ficar á espera de uma onda igual. Gosto de não fazer rigorosamente nada. Isto sou eu. Eu sou um deles. Esses preguiça-fóbicos!
…nota: com a singela, mas devida homenagem a Chuck Palahniuk
…nota: com a singela, mas devida homenagem a Chuck Palahniuk
10 junho 2005
os insectos ainda não dormem…
Tocaste-me no ombro subtilmente, querias testar-me? Será que ainda reconheceria o teu toque? Não tive pressa em virar-me. Sabia que estavas lá, mais tarde ou mais cedo os nossos caminhos iam cruzar-se. Senti a tua respiração, o teu hálito a rum, doce e quente. Piscaste o olho lentamente, o tempo quase que parou, tens esse poder. Não precisaste de dizer nada, segui-te até lá fora. A noite estava abafada, sentia-se uma atmosfera densa, os insectos ainda não dormiam, o seu zumbido ainda se ouvia. Não queres que fale, silenciaste-me com o teu indicador, cheira a tabaco e ao teu perfume. Uma pessoa define-se pelo cheiro das suas mãos. Tiraste-me o copo da mão e empurraste-me contra a mesa de pedra que fica ao lado daquele carvalho enorme, ainda dei mais um gole. Uma gota de suor escorre-te pelo peito abaixo, sigo-a com o olhar, continuas a não usar soutien. A pedra fria, as nossas línguas trocam saliva e álcool, o meu coração quente. Lá dentro a música não pára, nem nós. O copo parte-se, alguns vidros ferem-me as costas, não, não pares, não é nada. Os nossos movimentos fazem os vidros enterrarem-se um pouco mais, mas não sinto dor, sofro de prazer. Mais logo em tua casa, ris-te de nós, dos meus pequenos cortes e das tuas cuecas que alguém vai encontrar. Ainda está calor e os insectos, como nós, ainda não dormem.
07 junho 2005
a descoberta...
...descobri hoje que existia um blog com o mesmo nome deste, mas com a diferença de ter sido criado numa mais tenra idade. As desculpas já foram apresentadas aos visados http://napontadosdedos.blogspot.com/. A partir de agora este blog chamar-se-á "Na ponta dos dedos dos pés e das mãos" em vez de "Na ponta dos dedos".
puxão de orelhas...
...um dos meus gatos está com ciúmes. Um post sobre canitos e nem uma palavra sobre os bichos que mais admiro. Compreendo-o, já é velhote e os mimos ultimamente nunca são demais, aqui vai então meu velho: Se fosse um animal era um gato, gordo e peludo. Cinzento.
ai os canitos...
Adoro canitos. Não gosto tanto de alguns canitos por causa da educação que os seus donos lhes passam, não têm culpa, eu sei, mas acabam por ser um reflexo feio e porco, até mau deles, mas fiel. Há cerca de meia dúzia de anos importou-se uma moda, a moda do canito, de preferência rafeiro (tem mais pinta). O canito passou a acompanhar, sem trela, note-se, o dono para todo o lado, literalmente. Quem não viu aquele pitbull amedrontado no estádio do glorioso a festejar tantos anos de jejum a implorar para que os vermelhos (não conheço a palavra encarnado, o sangue é vermelho não é encarnado e o sangue, custe o que custar é a cor do benfica - VERMELHO) fizessem menos barulho. Nunca teve tanto receio na sua canina vida. Não tenho nada contra esta moda, até a acho gira, mas uma trelazinha impõe-se. Num destes dias bebia um belo fino devidamente acompanhado por um pires de tremoço no meu tasco preferido quando passou um casal de rastas com uma canita, engraçada, com uma coleira tricolor, sem folha. Ninguém sabe como é que aquilo aconteceu, mas a canita mordeu o puto que estava na mesa á minha frente. Tanto era o sangue vermelho da criança que o pai dela exigiu o da canita. Os rastas não sabiam o que dizer ou fazer, dei-lhes uma sugestão, uma trela a condizer.
05 junho 2005
...e os peixes?
...uma vez mais. A luz foi-se. Quanto tempo vai demorar desta vez? E os peixes? Tenho que ir lá vê-los. Estão mais tranquilos que eu. Uma curta hora e eles ficam de boca aberta e de barriga para o ar a boiar na água fria. Eles não se queixam se não lhes ligamos nenhuma. E depois? Quando passo o dedo ao leve pelo vidro eles não me cumprimentam instantaneamente? Pelo sim, pelo não, vou pôr uma panela de água ao lume, podem morrer asfixiados, mas ao menos morrem quentinhos...
