17 junho 2005

o monstro…

…passou a mão pelo cabelo desgrenhado e sem brilho, pequenas partículas de caspa ficaram presas na gordura dos dedos. Não sabia o que fazer. Cuspiu para o chão e olhou o cão mais uma vez, esperou. O cão tem estado quieto e mudo, parece pensar. Ainda não comeu nada, começa a ficar preocupado, tem uma fome de lobo. Não o quer por perto nem a olhá-lo. Não lhe rosnou, mas fez questão de mostrar os seus belos caninos quando os lábios tremelicaram. O monstro é dono dele, ele sabe-o, sabe que é usado e vai sê-lo até ao fim. “Não queres nada meu lindo?” aproximou-se com um sorriso manhoso nos lábios. Rosnou e ladrou com raiva, atirou-se para a frente, mas a corrente puxou-o. O monstro pegou no bastão e ameaçou bater. De pé nas patas de trás o enorme cão espuma-se, a corrente retesa-se e aperta-lhe o pescoço. Está um pouco magro, desta vez demorou mais tempo a recuperar do último combate. O outro cão morreu, não aguentou e acabou por morrer nos braços do outro monstro. Ou era ele ou eu, mas no próximo até ofereço o pescoço, nem ladro. Quero perder e fechar os olhos. Só sei matar. Olhou a taça da comida uma vez mais e devorou-a, a decisão estava tomada. Os olhos do monstro brilharam, “lindo menino”. No fim de comer deixou que ele se aproximasse para tirar o penso do pescoço, algumas gotas de sangue caíram no chão de cimento do barracão de três por dois com uma janela minúscula que dava para um ferro-velho, cheirava a mijo e a merda. O monstro visitava-o três vezes por semana, para o levar a apanhar um pouco de ar e treinar. Treinar? Levar porrada com o bastão. Os combates são sempre ao sábado á noite. A ferida ainda não está sarada. A recuperação não é total, mas ele também não vai durar para sempre. Ganhou-o num jogo de póquer e tem rendido bom dinheiro, ele que esteve para o oferecer a um outro monstro, sorriu ao lembrar-se e afagou-lhe pela primeira vez a cabeça. Ia inscrevê-lo já para esta semana. Cada vez há mais dinheiro em cima da mesa e ele é um campeão que nunca perde.