31 maio 2005
..um dia como tantos outros. Será mesmo assim? Não estarás tu a normalizar os dias que são verdadeiramente importantes? Nessa tua tentativa de desculpabilização por anos perdidos? Não foram anos perdidos, horas esfumadas, antes dias e minutos de observação e introspecção, construímos o que somos, fumou-se o que havia. Lembras-te? Quando fumávamos para comunicar? Triste sina a nossa. O molde de uma maneira de ser, de estar na vida, de a pensar. Um ponto de partida ainda válido. As lições estão em todo lado. E as tuas mãos ainda são pequenas para albergar meia hora de discussão?
30 maio 2005
o tempo, sempre...
...não pára, não olha para trás, corre como um rio. Não como um rio vulgar, ele não seca e é constante. Um fio interminável que não se rompe. Esquecemos que ele está sempre do nosso lado, mas ele passa depressa, o problema é esse, e quando o tentamos acompanhar ele já se foi. Acorda, ele ainda agora aí passou, corre atrás dele.
29 maio 2005
quando?
Não achas que está na altura de abrires o jogo? Adiar uma conversa franca e sincera é a melhor maneira de lidares com toda esta situção? Não vai se vai resolver por si, pois não? O que esperas? Não vamos a lado nenhum, estamos aqui, á espera. Quando?
27 maio 2005
a vibrar...
...todo o santo dia a martelar, todo o santo dia a ranger os dentes. Que tolerância de ponto a de hoje. Ainda vibro com a mesma frequência da picareta, ressonância estranha esta que se apoderou do meu corpo, todo eu sou um autêntico tremor. As eleições já não estão assim tão longe e eles sabem-no, não se pode perder um único dia. Ultimam-se as datas das inaugurações. A azáfama de mostrar obra feita toma conta de tudo, até de nós.
24 maio 2005
uma carícia matinal…
...talvez seja isso, mas eu ainda não sei. Diz-me uma amiga que a primeira hora do dia é a mais importante, se ela for boa o dia corre bem, se for óptima o dia é perfeito. “És tonta!” Não me explicou bem a ideia dela, disse umas coisas vagas sem sentido na altura. Fiquei a pensar nisso um bocado, será o seu novo namorado? Amanhã pergunto-lhe.
23 maio 2005
tempo de decisões…
...não tenho tempo a perder e a situação é angustiante e ingrata. Total dependência. Eles mandam, eles decidem, eu espero e desespero. É assim…
21 maio 2005
escadas e degraus…
...custava-lhe subir as escadas até ao primeiro andar, eu, pequeno e sempre a correr chegava ao quinto enquanto que o senhor doutor ainda ia meio. Respirava pesadamente, agarrava-se com uma força tal que o corrimão de madeira rangia cada vez que levantava um pé. Comecei a passar por ele mais devagar, umas vezes cumprimentava-o, noutras achava que não valia a pena estar a chatear o senhor doutor, sempre muito compenetrado na sua tarefa. Cada vez que o observava com mais atenção e pormenor achava tudo aquilo muito estranho, o tremendo esforço, sempre o mesmo ritmo e duas gotas de suor que lhe corriam da testa, até a minha avó subia bem mais rápido que o senhor doutor. Um dia ao jantar o meu pai desfez-me o mistério, o senhor doutor não tinha as duas pernas, tinha sido amputado ás duas abaixo do joelho quando ainda era um rapaz novo. Nunca quis saber o que era uma cadeira de rodas. Tinha uma prótese em cada perna. Admirei-me com a sua força de vontade e a sua força física, tinha mais de setenta anos. A partir desse dia sempre que me cruzava com o senhor doutor parava de correr e nunca mais deixei de o cumprimentar.
não há volta a dar...
...é sempre assim comigo. Planeio tudo até ao mais ínfimo pormenor e sai sempre ao contrário. Já tentei andar ao sabor do vento, sem norte nem rumo e, quando consigo é por pouco tempo. A necessidade, ou a sensação, de ter um pouco de controlo das coisas vem sempre ao de cima. Enfim...
19 maio 2005
tacteando as pedras…
…da calçada um cego passou pelas minhas janelas. Tenho sempre a mesma reacção, por mais que os veja, uma mistura de compaixão e admiração. Eles não gostam que se tenha pena deles, concordo, mas não deixo de ter. Podem contrapor que têm o mundo deles, independente, de sons e de cheiros, formas ou mesmo as suas cores irreais. Mas mesmo assim tenho pena deles, sonharão eles as imagens que este nosso mundo nos dá? Tinha o rádio ligado. Assobiou a melodia que tocava baixinho cá dentro, sorri. Ele virou-se para trás e os seus olhos enfrentaram os meus, um combate desigual, mas sem vencedor. Queria saber donde vinha aquele sorriso mudo e sincero.
17 maio 2005
quatro paredes...
Estou e vou estar entre quatro paredes durante as próximas duas ou três semanas. Um esforço final. Apesar de generoso, o espaço já começou a encolher, as paredes querem juntar-se, os cantos estão já a arredondar-se, a bolha vai-se formando. Até as janelas, enormes, parecem escurecer o quarto. Uma vez mais, uma última vez.
16 maio 2005
comer e calar…
...todos já passámos pelo mesmo, desleixo ou mesmo incompetência, impaciência, falta de respeito para com as pessoas, enfim, o que as pessoas por de trás de um balcão ou uma secretária infelizmente já nos habituaram. Dependemos delas para resolvermos os problemas. E por isso vou comer e calar? O raio é que vou, vou ser indelicado e mal-educado e, se isso não me chegar insulto-a, é o que ela merece. Espero que ela amanhã tenha uma boa desculpa para hoje se ter baldado ao trabalho, até gosto dela. Se calhar este post só cá devia estar amahã. Por causa do contraditório.
um corte profundo...
...no dedo. Um copo de vinho quase a transbordar. Uma criança que não pára de chorar. Uma cama fria e por fazer. Um livro rasgado. Um prato que cai no chão. Uma alface amarela e amarga. Um dos meus discos riscado. Uma péssima notícia. O teu sorriso cínico. Tudo isto é demais para um dia só...
14 maio 2005
uma questão de fé?
Disseram-me para ter fé. Respondi que não sei o que a fé. Disse que acredito em mim e nas pessoas que me são verdadeiras. Responderam que isso não era fé, era uma crença em algo palpável, que existia e portanto era um facto, nunca uma fé. Então a fé é só uma? Pois...para eles, a fé é só uma. Não será isto fé, a minha fé? Talvez não seja, mas também não é coisa que me tire o sono, questões de fé. Mas aqui entre nós, onde eles não me ouvem, tenho fé para logo, tenho fé nos rapazes. Força nas canetas.
12 maio 2005
não te podes queixar…
...da minha ausência, da minha falta de apoio. Estou do teu lado, sempre estarei, enquanto tudo entre nós for claro e cristalino. Sem rodeios, não gostamos de floreados. Cara a cara. É assim que tem de ser. És um lutador nato, com um poder de encaixe invejável. Só te falta a oportunidade, ela está para chegar, prepara-te. Não tenhas medo, confia no teu instinto.
semana difícil...
...os jantares sucedem-se, as bebedeiras não se curam, as dores de cabeça não nos largam, há sempre uma quecazita no fim da noite, mesmo que não nos lembremos de quase nada, é uma semana dura. Temos que ser rijos. Somos novos, o corpo que aguente, as células hepáticas não se regeneram, mas que se dane, é semana de queima, já está é quase no fim. Vou-me arranjar, a noite está prestes a começar...por onde andarás hoje? Ainda páras pela barraquinha cor de rosa?
10 maio 2005
na beira da estrada...
um par de corvos levanta voo á minha passagem. As viagens solitárias de carrro são quase sempre momentos de reflexão, não na ida, mais na volta porque presume-se que as viagens tenham algum objectivo mais ou menos definido. No caminho para a I. lá reparei em corvos, em cegonhas a planar ou a aterrar nos ninhos nos postes de alta tensão. Nos extensos vinhedos que começaram á pouco a verdejar. Só abro o diafragma da objectiva, qundo a mente se começa a esvaziar dos assuntos que ainda á pouco me arreliavam. Quero fazer uma viagem sem rumo, sem objectivo, divagando, ver o tracejado a ser engolido pelos pneus, as caras que passam nos carros. Lembro-me do Menos Que Zero, "...as pessoas têm medo de se envolver nas auto-estradas".
09 maio 2005
sem paciência
...para aturar todo o tipo de merdas banais que nos rodeiam. Principalmente discussões que não levam a lado algum. Preciso de um cigarro e um gin(ainda e sempre com "n"). Depois não digas que não te avisei...
06 maio 2005
e porque não?
Está calor e abafado, cheira a Verão, o almoço até foram umas sardinhas assadas. Tu disseste que estavam óptimas, o chato era teres de ir trabalhar da parte da tarde. O rosé estava frio e sabia-te bem. Apetecia fugir para um lugar como aquele de que me falaste, onde os dias podem ser tudo aquilo que quisermos. Foste embora no fim de almoço, eu fiquei a olhar a praia, esperando por esse plano de fuga que tarda em aparecer. Não me apetece ir sozinho.
PS: Estou á tua espera, deve ter sido duro, espero que não tenhas tido qualquer tipo de complacência com as feras. Não me apareças de rastos…
PS: Estou á tua espera, deve ter sido duro, espero que não tenhas tido qualquer tipo de complacência com as feras. Não me apareças de rastos…
04 maio 2005
uma esmola…
Fiquei a pensar naquela expressão o resto do dia, “Não me deu de manhã?”. Por situações estranhas todos nós passamos, mas há frases, olhares, caras que nos marcam, chegamos a questionar se estaremos mesmo a vivê-las ou a senti-las.
Quando passei por ela da primeira vez, apressado, sorriu-me, retribui-lhe com o meu sorriso fácil e descomprometido. Julguei que tivesse a recuperar o fôlego, ainda que tivesse subido uma dúzia de degraus. O dia estava muito quente. Reparei nos seus sacos a imitar o padrão da B.
Quando voltei da baixa, a senhora lá estava. Parei no alfarrabista do Arco da Almedina, passo os olhos pelos livros que estão na parede, não entro por preguiça umas vezes e por falta de paciência noutras, não costumo comprar livros por impulso, ao contrário de quase tudo o resto. A senhora chamou-me, “uma esmola”, não percebi á primeira, aproximei-me e ela repetiu “uma esmola”, instintivamente meti a mão ao bolso e tirei umas moedas. Dou esmola, não penso quando o faço. Olhei melhor para ela, pele tom de pérola amarelecida, asseada, roupa não muito velha e aquele conjunto de três malas padronizadas.
“Não me deu de manhã?”. Desculpe, não estará a confundir-me com outra pessoa? Não lho digo, penso-o, talvez tenha confundido. “deus o abençoe…”.
Não serão estes pequenos gestos, uma fraca tentativa de redenção, uma tentativa de julgarmos que no fundo de tudo até nem somos assim tão maus como pensamos? A necessidade de praticar algum bem. Uma esmola de nós.
Pensando bem o pior de tudo ainda são aquelas malas, que ainda não me saíram da cabeça.
Quando passei por ela da primeira vez, apressado, sorriu-me, retribui-lhe com o meu sorriso fácil e descomprometido. Julguei que tivesse a recuperar o fôlego, ainda que tivesse subido uma dúzia de degraus. O dia estava muito quente. Reparei nos seus sacos a imitar o padrão da B.
Quando voltei da baixa, a senhora lá estava. Parei no alfarrabista do Arco da Almedina, passo os olhos pelos livros que estão na parede, não entro por preguiça umas vezes e por falta de paciência noutras, não costumo comprar livros por impulso, ao contrário de quase tudo o resto. A senhora chamou-me, “uma esmola”, não percebi á primeira, aproximei-me e ela repetiu “uma esmola”, instintivamente meti a mão ao bolso e tirei umas moedas. Dou esmola, não penso quando o faço. Olhei melhor para ela, pele tom de pérola amarelecida, asseada, roupa não muito velha e aquele conjunto de três malas padronizadas.
“Não me deu de manhã?”. Desculpe, não estará a confundir-me com outra pessoa? Não lho digo, penso-o, talvez tenha confundido. “deus o abençoe…”.
Não serão estes pequenos gestos, uma fraca tentativa de redenção, uma tentativa de julgarmos que no fundo de tudo até nem somos assim tão maus como pensamos? A necessidade de praticar algum bem. Uma esmola de nós.
Pensando bem o pior de tudo ainda são aquelas malas, que ainda não me saíram da cabeça.
03 maio 2005
dias assim...
O telemóvel toca. Ainda não são horas de acordar. O sonho toma a liberdade de incluir o som dele de forma que me leve a ignorá-lo. Não sei porquê acordei mesmo, quem será? Não é habitual tocar a esta hora do dia. Não conheço o número, ainda assim atendo, tento aclarar a voz, mas não consigo. Uma notícia inesperada. Despertei no fim do telefonema. Não estou em mim de contente, tenho um sorriso estampado na cara,ainda bem que há dias assim.
