escadas e degraus…
...custava-lhe subir as escadas até ao primeiro andar, eu, pequeno e sempre a correr chegava ao quinto enquanto que o senhor doutor ainda ia meio. Respirava pesadamente, agarrava-se com uma força tal que o corrimão de madeira rangia cada vez que levantava um pé. Comecei a passar por ele mais devagar, umas vezes cumprimentava-o, noutras achava que não valia a pena estar a chatear o senhor doutor, sempre muito compenetrado na sua tarefa. Cada vez que o observava com mais atenção e pormenor achava tudo aquilo muito estranho, o tremendo esforço, sempre o mesmo ritmo e duas gotas de suor que lhe corriam da testa, até a minha avó subia bem mais rápido que o senhor doutor. Um dia ao jantar o meu pai desfez-me o mistério, o senhor doutor não tinha as duas pernas, tinha sido amputado ás duas abaixo do joelho quando ainda era um rapaz novo. Nunca quis saber o que era uma cadeira de rodas. Tinha uma prótese em cada perna. Admirei-me com a sua força de vontade e a sua força física, tinha mais de setenta anos. A partir desse dia sempre que me cruzava com o senhor doutor parava de correr e nunca mais deixei de o cumprimentar.

<< Home