15 junho 2005

fortuna…

…hoje é sábado de manhã, a mamã não trabalha, o pai sim. Enquanto vejo uns desenhos animados e tomo o pequeno-almoço a correr no sofá, a mamã já me chama para irmos os dois ao mercado. É sábado de manhã, dia de mercado. A mamã, para não perder tempo segue sempre o mesmo trajecto, peixe, fruta e flores, a carne essa compra-a no talho do senhor António. De mão dada aí vamos nós, as velhotas com os saquinhos com rodas que mais parecem triciclos já fizeram as suas compras e cruzamo-nos com elas, vamos sempre um bocadinho tarde, não demasiado. Para não variar o mercado está a abarrotar, de mão dada, sinto-me quase encurralado quando caminhamos por entre as pessoas. Sou pequeno e só consigo ver pernas e rabos que se bamboleiam á minha frente, diferentes formas de andar. Barulho, muito barulho. Primeira paragem, a senhora da fruta, muito simpática e de voz doce. Prendia-me sempre o olhar aquele dente de ouro que reluzia quando ela sorria. A seguir era a senhora do peixe já velhota com uma verruga pequenina na ponta do nariz, sempre a enfiar e a tirar o saco de plástico das notas e das moedas cheias de escamas do bolso do avental. A sua banca era a mais modesta de todas, mas o seu peixe o mais fresco segredava-me a mamã. No ar o frango de churrasco avisava que a hora de almoço não tardava, alguns já lavavam as bancas e aquela água suja que escorria para o chão escuro e gorduroso enojava-me um pouco, puxava a saia da mamã “está a ficar tarde…temos de ir”. O chão ficava mais escorregadio e ainda mais gorduroso, os restos de um dia de trabalho iam-se acumulando nas pequenas valas que circundavam as bancas “para a próxima trago galochas”, “não sejas tonto”. Faltavam as flores que ficavam mesmo á saída. Entrávamos por um lado e saíamos do lado oposto. Lá estava o senhor o senhor sem pernas em cima do caixote de madeira mesmo em frente da senhora das flores, outra moeda de cinquenta escudos. No caminho de casa perguntei-te porque compravas flores disseste que “uma casa sem flores é uma casa sem fortuna”, “fortuna mamã?”, não respondeste. Mais tarde percebi que fortuna era essa, a sorte de te ter, a minha fortuna.